Testemunhos Céu e Inferno
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Ian McCormack

     
UM VISLUMBRE DA ETERNIDADE

O encontro de um homem com a vida após a morte.






A história de Ian McCormack Contada por Jenny Sharkey

Um Vislumbre da Eternidade é uma história real e surpreendente sobre o encontro de um homem com a morte e com o mundo espiritual. Picado por cinco águas-vivas venenosas enquanto mergulhava na costa das Ilhas Maurício, Ian morreu no hospital, tendo permanecido sem vida por cerca de 20 minutos. Durante este tempo, ele foi levado ao céu e ao inferno e depois voltou para contar a história! A morte foi a porta de Ian para a vida eterna e o testemunho dele tem transformado vidas pelo mundo inteiro, uma vez que aborda uma das mais profundas questões que todos nós queremos saber.


Aos nossos filhos, que são o nosso orgulho e alegria, E a todos os filhos (jovens e velhos) que já Encontraram a sua morada com o Pai.

“Credes em Deus, crede também em mim.

 Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito.

Vou preparar-vos lugar.”

Jesus João 14:2 (ACF)

PREFÁCIO


A história de Ian McCormack é muito emocionante e totalmente digna de crédito. Embora eu esteja acostumado com a história de Ian, pus-me a pensar mais uma vez, quando li este curto livro, sobre a razão e o objetivo da minha própria vida. Felizmente, outros leitores serão estimulados a fazer o mesmo.

 

Como médico experiente que sou, não tenho dúvidas de que Ian morreu, após ter recebido várias picadas da água-viva Box Jellyfish. Esse animal é uma das criaturas venenosas mais perigosas do mundo. Geralmente, a pessoa morre em cinco minutos, após ter sido picada. A morte ocorre ou por parada respiratória, causada pela paralisação da parte do cérebro que comanda o sistema respiratório, ou por efeitos do veneno no coração, que causam distúrbios na condução elétrica e paralisia do músculo cardíaco. Em geral, pacientes que foram picados pela Box Jellyfish ficam inconscientes antes mesmo de sair da água. 

Na minha opinião, Ian McCormack teve uma parada cardíaca, oriunda dos efeitos tóxicos das picadas da Box Jellyfish. Ninguém pode ser responsabilizado pela morte de Ian, uma vez que já havia passado bastante tempo quando ele tomou o antídoto no hospital, ocasião em que o triste diagnóstico foi feito.

O relato de Ian sobre Jesus Cristo, o Céu e o Inferno está completamente de acordo com o que a

Bíblia registra. Na verdade, todos os eventos sobrenaturais devem ser investigados à luz das Escrituras, com o propósito de saber se eles são verdadeiros, assim como fizeram os bereanos (Atos 17:10-11)

Mais tarde, em 1991, Ian tornou-se ministro do Evangelho e desde então tem viajado pelo mundo inteiro, contando o seu testemunho. Ian tem feito disto a razão da sua vida: ver o maior número possível de pessoas irem para o céu, em vez de irem para o inferno. Essa é a finalidade das suas viagens, que não possuem fins lucrativos.      

Após ter ouvido o testemunho de Ian, fiquei tão impressionado que fui coautor de dois livros sobre experiências quase-morte, e atualmente viajo para muitos lugares, a fim de falar sobre o tema. Com toda sinceridade, espero que assim que os leitores se depararem com a realidade do céu e do inferno, eles garantam não somente a sua ida para o céu, mas encorajem outras pessoas a fazerem o mesmo.

Dr. Richard Kent

Dr Richard Kent é médico aposentado e ministro do Evangelho. É coautor dos livros “The Final Frontier (A Fronteira Final)” e “Beyond the Final Frontier (Além da Fronteira Final)”, obras que trazem 51 relatos de experiência quase-morte. Os dois livros, bem como outras obras sobre experiência quase-morte, sobre o Dr. Richard Kent e sobre o instituto britânico onde ele atua estão disponíveis, em inglês, no site www.finalfrontier.org.uk

CAPÍTULO UM

A IMENSIDÃO ALÉM-MAR


Há um caminho que ao homem parece direito, Mas o fim dele são os caminhos da morte.

Provérbios 14:12 (ACF)

Em 1980, quando tinha 24 anos, aconteceu algo que viraria a minha vida de cabeça para baixo. Eu tinha economizado algum dinheiro e estava ansioso para viajar e conhecer o mundo. Eu e meu melhor amigo resolvemos vender nossas coisas, para surfarmos em um safári, e fazer um feriado de verão que “ficaria na história”.

Nasci e cresci na Nova Zelândia, país que fica numa linda ilha da região do Pacífico. Meus pais eram professores e, por esse motivo, nós nos deslocávamos de uma cidade para outra com frequência. Chegamos a morar, inclusive, em regiões bastante rurais. Eu, minha irmã e meu irmão nos divertíamos usufruindo de muitas coisas que a Nova Zelândia oferece de graça para as crianças, como os feriados de verão na praia, por exemplo. Desde jovem, eu era fascinado pelo mar.

Concluí o curso superior de Agronomia, na Lincoln University, e trabalhei, por dois anos, como consultor, na New Zealand Dairy Board. Eu gostava muito de agricultura. Também gostava muito de trabalhar ao ar livre, e, por isso, passava a maior parte do tempo fazendo trabalho de campo. A maioria dos finais de semana eu passava mergulhando, surfando, fazendo caminhadas e praticando todo tipo de esporte.

Após dois anos de trabalho, eu quis muito viajar. Na Nova Zelândia, é comum os jovens viajarem para o exterior, para terem algumas experiências “além-mar”. Este fenômeno é carinhosamente conhecido pelo nome de The Big O.E. (The Big Over Sea – A Imensidão Além-Mar). E então eu fui, com minha prancha de surfe debaixo do braço. Primeiro, voei para Sydney, na Austrália, e lá surfei, começando pela costa leste desse país, até chegar à cidade de Surfers Paradise, também na Austrália. Eu não tinha muito para gastar e fiquei nos lugares mais baratos que encontrei, enquanto passava os dias pegando onda em Dee Why, Fosters, Lennox Heads, Byron Bay e Burleigh Heads.



Foto do passaporte de Ian de 1980

Fui de carona para Darwin, cidade do interior da Austrália, e de lá fui para Bali, na Indonésia, onde surfei em
Kuta Reef e aproveitei a oportunidade para surfar também em Uluwatu, um incrível recife com ondas de esquerda. Também visitei alguns templos hindus e budistas antes de continuar minha jornada pela Ilha de Java.

Quando estava viajando pela Ásia, frequentemente as pessoas me perguntavam se eu era cristão. Por causa da minha pele branca, é óbvio que eles concluíam que eu tinha descendência europeia. Essa pergunta me intrigou, tendo em vista que eu havia sido criado em uma família cristã, mas não tinha certeza se devia me considerar um cristão.

Fui criado como anglicano e frequentava a Church of England (Igreja da Inglaterra). Aos 14 anos, fui batizado nessa igreja. Quando criança, eu orava, ia para a Escola Dominical e participava do grupo de jovens, mas ainda não tinha tido uma experiência pessoal com Deus. Eu achava que não o conhecia.  

Lembro do dia do meu batismo. Saí da igreja bastante desiludido. Nada parecia ter acontecido.

Nada tinha mudado depois que participei daquela experiência religiosa. Eu tinha muitas perguntas no meu coração. Então, perguntei para minha mãe se Deus já tinha falado com ela. Ela virou para mim e disse: “Sim, Deus fala conosco e Ele é real”. Ela me contou que, certa vez, clamou a Deus em um momento de tragédia e Ele respondeu. Então, perguntei por que Deus nunca tinha falado comigo. Lembro da resposta dela como se fosse hoje: “Geralmente, é necessário passarmos por uma tragédia, para que nos humilhemos e nos voltemos para Deus. O homem, por natureza, tende a ser muito orgulhoso”. Eu repliquei: “Eu não sou esse tipo de pessoa, eu não sou orgulhoso”. Mas, quando refleti sobre a questão, no fundo eu era sim muito orgulhoso.

Minha mãe disse: “Eu não vou te obrigar a ir para a igreja. Mas lembre de uma coisa. Tudo o que você fizer na vida e aonde quer que for, não importa se você acha que está distante de Deus, lembre de uma única coisa: se estiver com problemas ou precisando de ajuda, clame a Deus, do fundo do coração, que Ele vai te ouvir. Ele vai te ouvir e te perdoar”. Eu me lembrei dessas palavras. Elas ficaram gravadas na minha mente. Mas resolvi não ser hipócrita e não voltar para a igreja porque eu nunca tinha tido uma experiência com Deus. Para mim, o Cristianismo era apenas uma religião vazia. 

Viajei pelas ilhas de Java, Cingapura e Tiomen e ainda pela Malásia. Fui também para Colombo, no

Sri Lanka, com uma holandesa que conheci. Chegando lá, fui para a costa, surfar na Arugum Bay. Depois de um mês pegando ondas radicais na Arugum Bay, meu visto estava prestes a vencer, então voltei para Colombo.

Em Colombo, fiz alguns amigos que eram tâmeis e eles me convidaram para pousar na casa deles e conhecer o seu estilo de vida em família. Certa vez, eles me levaram para conhecer um lugar chamado Katragarma, uma cidade que ficava num local escondido. Foi nesse lugar “sagrado” que tive a minha primeira experiência sobrenatural. Eu estava olhando para um ídolo (representado por uma imagem de escultura), e, de repente, vi que os lábios dele começaram a se mexer. Foi uma experiência bastante desconfortável, que me fez querer sair daquela cidade o quanto antes.         

 

Enquanto eu estava morando com os meus amigos tâmeis, percebi que eles, todos os dias, ofereciam comida para o deus elefante Garnesh, representado por uma imagem de escultura que eles tinham em casa. Havia dias em que eles vestiam a imagem, outros em que eles davam banho nela, com água ou leite. Para mim, era muito estranho o fato de uma pessoa acreditar que uma imagem de pedra pudesse ser um deus, já que ela tinha sido feita por mãos humanas. Certo dia, ao olhar para aquela imagem de pedra, senti uma presença maligna muito forte emanando dela. Isso me surpreendeu e me assustou. Nesse momento, vieram as seguintes palavras à minha mente: “Não terás outros deuses diante de mim e não farás para ti imagem de escultura”. Imediatamente, reconheci que este era um dos Dez Mandamentos, que está registrado na Bíblia em Êxodo 20:4 e que eu tinha ouvido na Escola Dominical. Comecei, então, a meditar nessas palavras.     

 

Do meu jeito, eu estava procurando um “sentido para a vida”. Às vezes, eu me considerava um ateu, outras vezes, um “livre pensador”. As minhas experiências me fizeram pensar sobre as coisas sobrenaturais, mas eu não tinha o entendimento necessário para interpretá-las. Eu queria experimentar tudo que a vida tinha para oferecer. Nessa época, minha filosofia era simplesmente aproveitar a vida ao máximo. Naqueles anos, eu não tinha um rumo. Minha vida era um infindável ciclo de dias que começavam e terminavam.      

 

De volta à Arugam Bay, convidei algumas pessoas para fazer uma viagem em uma escuna chamada “Constelação”, que tinha 27 metros de altura. Partimos do Sri Lanka, no meio da noite, rumo à África. Vinte e seis dias depois, chegamos ao porto de Port Louis, em Mauritius, uma ilha paradisíaca.      

Tamarin Bay


Nas várias semanas que fiquei em Mauritius, morei em Tamarin Bay, entre os pescadores e surfistas locais, que faziam parte do povo crioulo. O haxixe e a maconha formaram uma espécie de vínculo entre nós, o que os fez me aceitar no meio deles. Eles me ensinaram a mergulhar à noite, nos recifes afastados do vilarejo. Mergulhar à noite é uma experiência incrível. Os camarões saem da toca e dá para pegá-los com facilidade, depois de enfraquecer a visão deles, com uma lanterna aquática. À noite, os peixes estão dormindo, e, usando uma lança, é só escolher qual deles você quer levar para o jantar. Era uma atividade fantástica e nós vendíamos o que conseguíamos capturar para os turistas do hotel. 

Após várias semanas surfando nas praias de Tamarin, meu dinheiro acabou bem depressa e eu tive de ir embora por causa disso. Então, fui para a África do Sul, onde consegui um emprego como professor de windsurfe e esqui aquático. Por incrível que pareça, eles me pagavam por isso! Surfei em Jeffreys Bay e Elands Bay e visitei algumas das mais famosas reservas mundiais de animais, localizadas na África do Sul.      

 

Eu estava pensando em viajar de avião da África para a Europa, mas mudei completamente meus planos quando soube que meu irmão mais novo estava para se casar, na Nova Zelândia. Eu quis estar presente no casamento dele, então resolvi voltar para a Nova Zelândia, passando pela Ilha da Reunião, pelas Ilhas Maurício e pela Austrália.

Na minha parada na Ilha da Reunião, descobri um magnífico local para surfar chamado St Leu. Lá, peguei ondas muito boas. Depois, segui rumo às Ilhas Maurício. Era março de 1982 e eu já estava viajando há cerca de dois anos, dormindo, geralmente, em cabanas na praia e vivendo como um nômade. Estava na hora de voltar para casa.


Onda na Ilha de Mauritius



CAPÍTULO DOIS

A BOX JELLYFISH


[...] no teu livro foram escritos os dias,

Sim, todos os dias que foram ordenados para mim, Quando ainda não havia nem um deles.

Salmo 139:16 (ARA)

Mais tarde, voltei às Ilhas Maurício, pretendendo ficar algumas semanas. Aluguei uma casa, reencontrei meus amigos crioulos e passava o tempo surfando e praticando mergulho noturno. Certa noite, uma semana antes de eu ter que voltar para a Nova Zelândia, um amigo meu veio até minha casa e me convidou para irmos mergulhar. Fui até a varanda, olhei para o mar e vi uma forte tempestade. O brilho dos raios iluminava a escuridão do céu. Falei para o meu amigo Simon: “Você tem certeza? Não está vendo a tempestade?” Eu tinha medo que a tempestade trouxesse muitas ondas para o recife, tornando-o perigoso. Mas Simon respondeu “Vai dar tudo certo. Nós só vamos descer uns nove quilômetros pela costa, para mergulhar em uma parte do recife, que é muito bonita. Você vai se surpreender com beleza do lugar”. 

No final das contas, ele me convenceu a ir. Era por volta de 11 da noite. Peguei as minhas coisas, pulei para dentro do bote e fomos – Simon, um outro mergulhador da região, o rapaz do bote e eu. Remanos costa abaixo, rumo ao lugar que Simon falou. Estávamos há cerca de 2 quilômetros de distância da ilha. O bote navegava pelo meio da lagoa e nós estávamos indo mergulhar na parte de fora do recife, que vai dar direto no oceano. Era mesmo um lugar muito bonito, assim como Simon havia falado.  

Mergulhamos. Eu fiquei boiando e meus amigos afundaram. Normalmente, nós ficamos juntos, mas, por alguma razão, nós nos separamos. Eu estava procurando camarões, quando minha lanterna localizou uma estranha criatura marinha, naquela água escura. Parecia uma lula. Curioso, nadei para mais perto dela, estendi a mão e a peguei. Eu estava usando minhas luvas de mergulho e a criatura escorregou pelos meus dedos, como uma geleia, e escapou. Ela começou a nadar e fiquei intrigado, pois era uma água-viva muito esquisita. Tinha tentáculos longos e transparentes, bastante incomuns, e o corpo parecido com o de uma lula, mas era quadrado. Eu nunca tinha visto aquela espécie de água-viva antes, mas me afastei dela e continuei a procurar camarões. 

 

Box Jellyfish

Quando virei minha lanterna para o recife, de repente senti um baque no meu antebraço, como se tivesse sido atingido por mil volts de eletricidade. Olhei ao redor, para ver o que era. Eu estava usando uma roupa de mergulho de mangas curtas, então a única parte do meu corpo que estava exposta eram os meus antebraços. Algo tinha passado por mim e me dado um fortíssimo choque. Era como estar descalço em um piso úmido e pôr a mão em um fio elétrico. Recuei de medo e comecei a procurar desesperadamente, com a minha lanterna, para saber o que era aquilo, ou onde estava aquilo, mas eu não achava coisa alguma. Algo me picou ou me cortei no recife? Olhei para o meu braço, para ver se havia sangue, mas nada havia, só aquela dor latejante. Esfreguei meu braço, e isso foi uma das piores coisas que eu podia ter feito, pois serviu para espalhar o veneno na minha corrente sanguínea. Nessas alturas, a dor parecia ter diminuído um pouco, então pensei: “Só vou pegar um camarão e depois subir e perguntar o que aconteceu para o rapaz que está no bote.” Eu não queria me desesperar. Como mergulhador, eu sabia que era muito importante para a minha própria segurança não entrar em pânico.   

Então, fui pegar camarão. Enquanto eu estava procurando, apareceram mais águas-vivas daquela espécie que eu tinha visto alguns minutos atrás. Duas delas estavam nadando lentamente ao meu redor, e os seus longos tentáculos faziam redemoinhos atrás delas. Pelo canto do meu olho, vi os tentáculos daqueles animais se aproximando de mim. Quando eles tocaram no meu braço, de novo tive aquela sensação de ter sido atingido por um choque elétrico muito forte. Aquilo me surpreendeu demais. De repente, percebi o que tinha acontecido comigo na primeira vez! 

Eu sabia, pela minha experiência de salva-vida, que algumas águas-vivas são extremamente venenosas. Quando criança, tive febre do feno, e isso me causou reações alérgicas tão sérias que, seu eu fosse picado por uma abelha, minha perna inchava como um balão. Naquele momento, comecei a ficar com medo, pois eu tinha levado duas picadas daquelas águas-vivas. Fui para a superfície da água, para tomar ar, e comecei a olhar em volta, procurando o bote. As nuvens de tempestade estavam se aglomerando, fazendo a paisagem ficar numa escuridão total. Consegui enxergar o bote, próximo ao recife. Alonguei meus braços, esticando-os atrás das costas, em preparação para sair da água. Eu não queria ser picado outra vez. Então comecei a nadar em direção ao recife, tentando lutar contra o terror que estava sentindo. Quando nadava, senti algo deslizar nas minhas costas, e, mais uma vez, aquele choque muito forte atingir o meu braço. Quando olhei ao redor, vi tentáculos se movendo. Eu tinha sido picado pela terceira vez!              

Direcionei a minha lanterna para a água, a fim de enxergar o recife, e, para o meu desespero, a luz da lanterna revelou, logo abaixo de mim, um amontoado de águas-vivas. Pensei: “se uma delas atingir o meu rosto, acho que não vou conseguir chegar ao bote.” Então, pus a lanterna próxima do meu rosto e comecei a nadar, utilizando todas as minhas habilidades de mergulhador. Cheguei ao bote e, desesperadamente, dirigi-me ao jovem e perguntei, no meu melhor francês e crioulo, se ele sabia o que era uma água-viva. Como não era mergulhador, ele não sabia. O jovem apenas balançou a cabeça e apontou para a água, referindo-se ao meu amigo Simon, que estava lá. Então eu tive de mergulhar outra vez, para procurá-lo.    

Debaixo da água, enxerguei Simon. Então, apontei a luz da minha lanterna para o rosto dele, a fim de chamar a sua atenção. Ele foi para a superfície e eu gritei “Quero sair da água!”. Comecei a nadar em direção ao bote, quando outra água-viva apareceu bem na minha frente. Ela estava prestes a bater no meu braço e rosto. Mas resolvi proteger o rosto. Estiquei o braço e levei outro terrível choque quando empurrei o animal. Foi então que quis sair da água o quanto antes, e, com dificuldade, cheguei ao recife.

Fiquei parado naquele local, que tinha cerca de 60 centímetros de profundidade, nadando com os meus pés de pato. Olhei para o meu braço, que, naquelas alturas, estava inchado como um balão e cheio de bolhas, como de queimaduras. Nos locais onde fui atingido pelos tentáculos, parece que eu tinha me queimado na boca de um fogão.     

Quando eu estava olhando as marcas que ficaram no meu braço, meu amigo Simon surgiu atrás de mim, nadando com os seus pés de pato. Como todas as pessoas daquelas redondezas, Simom estava usando uma roupa de mergulho que cobria todo o corpo, isso porque eles foram criados numa região tropical e a água fazia eles ficarem com frio. Ele olhou para o meu braço, depois olhou para mim. Então, perguntou, espantado: “Quantas? Quantas vezes você foi picado?” Respondi: “Acho que quatro”. Ele disse: “Elas eram transparentes?” Repliquei: “Sim, elas pareciam transparentes.” Simon abaixou a cabeça e disse um palavrão. Ele falou: “Uma picada, só uma, e você já era!” Quando ele direcionou a luz da lanterna para o seu rosto, pude ver o quão preocupado ele estava com aquela situação. Eu disse: “Bem, então o que faço com quatro picadas no braço?”

Simon estava em pânico, e eu também comecei a ficar, visto que ele já mergulhava há quinze anos e eu confiava no conhecimento que ele tinha sobre o mundo marítimo. “Você tem que ir para o hospital.” Ele disse, em norueguês: “Aller, aller, vite.” O principal hospital estava a vinte e quatro quilômetros dali, era tarde da noite e eu estava a quase um quilômetro da praia. Eu podia ouvir ele dizendo “venha”, mas eu me sentia paralisado. Ele estava tentando me levar de volta para o bote. Quando ele me pôs dentro do bote, percebi que o meu braço direito estava literalmente paralisado, e eu não conseguia tirá-lo da água. Naquele momento, quando eu tentava tirar o braço da água, outra água-viva apareceu nadando ao redor dele, e, pela quinta vez, fui picado no meu já desfigurado antebraço. No meu coração, pensei: “O que fiz para merecer isso?” Então, tive uma retrospectiva dos meus pecados. Lembrei, instantaneamente, de tudo que tinha feito de errado. Eu tinha feito muitas coisas para merecer aquilo. Nós nunca conseguimos escapar de nada.               

Meu dois amigos passaram o bote por cima do recife, comigo dentro. O fundo começou a se quebrar. Era um bote de madeira, que era o ganha pão deles. Eu sabia que o caso era muito sério, para eles estarem fazendo aquilo. Eles puseram o bote na lagoa. Só eu estava dentro dele; eles estavam fora, nadando. Eu disse: “Entrem no bote!” Mas eles responderam: “Não, vai ser muito peso, somente o rapazinho irá contigo, para te levar até terra firme.” Então, aquele jovenzinho começou a empurrar o bote, rumo à praia.    

Parecia que eu estava pegando fogo. Eu podia sentir o veneno correndo nas minhas veias e parar em alguma área debaixo do meu braço. Uma das minhas glândulas linfáticas estava sendo atingida. Estava ficando cada vez mais difícil respirar pelo pulmão direito, pois ele estava sendo pressionado pela minha roupa de mergulho. Como eu ainda estava conseguindo me mover, comecei a tirar, aos poucos, a roupa de mergulho, com o braço esquerdo. Em seguida, vesti minha calça e me sentei. Minha boca estava seca e eu suava. Eu sentia o veneno se movendo. Senti uma dor aguda nas costas, como se tivesse levado uma pancada nos rins. Procurei não me mexer e não entrar em pânico. Estávamos a meio caminho da praia, e o veneno já estava pulsando e percorrendo a minha corrente sanguínea.           

Até aquela noite, eu não sabia e nem me importava para onde meu sangue ia, mas, naquele instante, fiquei muito interessado em saber por onde ele circulava! Agora, o veneno estava adormecendo toda a minha perna esquerda, e eu tinha plena consciência que, se ele fosse para o meu coração ou cérebro, eu teria um sério problema. Quando estávamos chegando à praia, minha visão começou a escurecer. Eu estava com dificuldade de enxergar. Chegamos à praia e eu me levantei, para sair do bote. Mas a minha perna direita estava paralisada e eu caí, bem em cima dos camarões, que estavam no fundo do bote. O jovem que me acompanhava ficou preocupado e fez sinal para que eu pusesse o braço em volta do pescoço dele. E foi o que fiz. Ele me tirou do bote e começou a me conduzir por aquela praia, até chegarmos à estrada principal.     

Era quase meia noite. O lugar estava deserto – nenhum carro passava. Segurando-me no rapaz, eu pensava como iria sair de lá e chegar ao hospital, naquela hora da noite. Minha perna direita estava tão fraca que sentei no asfalto. O jovem tentou me ajudar, mas depois ele começou a apontar para o oceano outra vez e a dizer: “Meus irmãos, preciso ir buscá-los.” Eu falei: “Não, fique aqui e me ajude.” Eu sabia que os outros podiam nadar com segurança dentro do recife, porque as águas-vivas estavam do lado de fora. Mas ele foi, e eu fiquei sozinho no acostamento daquela estrada, no meio da noite. Perdi as esperanças e me deitei, a fim de descansar. 


Riviere Noire, local onde o bote chegou e Ian foi levado



CAPÍTULO TRÊS

A PROVA DA PACIÊNCIA


Quando o meu espírito estava angustiado em mim,  Então conheceste a minha vereda.  No caminho em que eu andava,  Esconderam-me um laço.

 Olhei para a minha direita, e vi;

Mas não havia quem me conhecesse.

Refúgio me faltou; ninguém cuidou da minha alma.

Salmo 142:3-4 (ACF)

O cansaço se apoderou de mim enquanto olhava as estrelas. Eu estava prestes a fechar os olhos e dormir, quando ouvi, claramente, uma voz falar comigo, e dizer: “Ian, se fechar os olhos, você nunca mais vai acordar.” Olhei ao redor, esperando ver um homem, mas não havia ninguém. Aquilo me assustou, e perdi o sono. Pensei: “O que estou fazendo? Não posso dormir aqui. Preciso ir para o hospital e tomar o antídoto. Preciso buscar ajuda. Se dormir aqui, talvez nunca mais acorde mesmo.”         

Fiquei em pé outra vez. Consegui caminhar por aquela estrada, mancando, até chegar a um posto de combustível, próximo a um restaurante, onde havia alguns táxis estacionados. Com muita dificuldade, fui até onde os táxis estavam e implorei para que os motoristas me levassem ao hospital. Eles olharam para mim e disseram: “Quanto você vai nos pagar por isso?” Respondi, em alto e bom som: “Não tenho dinheiro algum.” Então percebi a estupidez que fiz em admitir que não tinha dinheiro. Eu podia ter mentido, mas não foi isso que fiz, eu só disse a verdade. Eu não tinha dinheiro. E os três riram: “Seu louco, você só pode estar bêbado.” Eles viraram as costas, acenderam um cigarro e começaram a sair de perto de mim.      

Então, claramente ouvi aquela voz de novo, que disse: “Ian, você está disposto a implorar pela sua vida?” Claro que eu estava! E até sabia como. Eu tinha morado na África do Sul o tempo suficiente para ver os negros se prostrarem diante dos brancos e dizer: “Sim, chefe, sim, meu amo.” Ia ser muito fácil para eu me ajoelhar, porque a minha perna direita já estava paralisada, e a esquerda estava bamba. Aproximei-me do carro, dobrei os joelhos e estendi os braços. Abaixei a cabeça e implorei pela minha vida. Eu estava quase chorando. Eu sabia que, se não fosse logo para o hospital, não iria mais a parte alguma. Se aqueles homens não tivessem amor, compaixão e misericórdia de mim, eu morreria ali, bem na frente deles.  

Então, implorei pela minha vida. Com a cabeça baixa, eu via os pés daqueles homens. Dois saíram dali, mas vi que um deles (um jovem) hesitava. Pareceu-me que aquele jovem ficou ali parado por um longo tempo. Finalmente, ele veio até mim e me levantou. Sem dizer uma palavra, pôs-me no carro e deu a partida. Porém, a meio caminho do hospital, ele falou comigo pela primeira vez e disse: “Em que hotel você está, homem branco?” Respondi que não morava em um hotel, mas em um bangalô, que ficava em Tamarin Bay. Ele achou que eu estava mentindo e ficou bravo – pensando que, no final das contas, eu não daria dinheiro para ele. “Como você vai me pagar?”, ele perguntou. Respondi: “Vou te dar todo o dinheiro que tenho!” Quando a sua vida está em jogo, o dinheiro não é nada. Eu disse: “Você vai ter todo o dinheiro que quiser se me levar para o hospital. Vou te dar tudo que tenho.” Mas ele não acreditava em mim.              

Ele acabou me levando para um grande hotel turístico e disse: “Vou deixar você aqui; não vou te levar.” Implorei que me levasse para o hospital, mas ele tirou o meu cinto de segurança e abriu a porta. “Saia!”, disse ele. Mas eu não conseguia sair do carro, eu mal podia me mover. Então ele me empurrou.  

Minhas pernas ficaram presas no umbral da porta do carro. Então, ele as ergueu, empurrou para fora, fechou a porta e foi embora. Caído lá, pensei: “Este mundo é podre. Eu já me deparei com a morte, o ódio e a violência; isto é o inferno, este lugar é o inferno na terra. Vivemos em um mundo sujo e nojento.” Fiquei caído lá, totalmente sem esperança. Pensei: “De que adianta tentar ir para o hospital? Se a sua hora chegou, apenas morra.”   

Então, lembrei do meu avô. Ele lutou na Primeira e na Segunda Guerra Mundial. Ele esteve em Gallipoli, na Turquia, e também no Egito, onde lutou contra o general alemão Erwin Rommel. Lembrei-me disso e pensei no fato de o meu avô ter sobrevivido a duas guerras mundiais, enquanto ali estava o seu neto, desistindo porque cinco miseráveis águas-vivas tinham-no picado! A lembrança dele renovou as minhas forças e decidi que não iria morrer sem fazer o que pudesse para conseguir ajuda. Com o braço que não estava paralisado, tentei me arrastar até a entrada do hotel. Vi algumas luzes acesas. Para o meu espanto, os seguranças estavam fazendo ronda, e a luz da lanterna deles chegou até mim, que estava se arrastando naquela sujeira.          

Um homem veio correndo. Olhei pra cima e reconheci que era um dos meus colegas de bar. Era um homem negro, chamado Daniel, um cara muito legal. Ele veio correndo na minha direção e perguntou: “O que há contigo? Você está bêbado? Está drogado? O que há contigo?” Levantei a minha camiseta suada, para lhe mostrar o meu braço, e ele viu as marcas de queimadura e como estava inchado. Ele me pegou nos seus braços e saiu correndo.         

Foi como se um anjo tivesse me pegado. Ele correu para dentro do hotel, atravessou a piscina e me pôs em uma cadeira de verga. Há cerca de três metros dali, os donos daquele hotel, que eram chineses, estavam bebendo e jogando mahjong. Todos os turistas já tinham ido dormir e o bar estava fechado, mas os donos ainda estavam jogando.      

Ian e Daniel, fora do hotel, em 1994

Daniel me pôs lá e desapareceu no meio da escuridão. Fiquei me perguntando onde ele teria ido, então percebi que, naquele país, um negro não podia falar com um chinês, a não ser que o chinês lhe peça para falar. Eu mesmo tentei me comunicar com aqueles chineses. Arregacei a manga da minha camiseta e mostrei-lhes o meu braço inchado. Falei: “Preciso ir para o hospital Quartre Bonne imediatamente. Fui picado por cinco águas-vivas.” Usei até um pouco de chinês. Eles riram. Um deles (um jovem) se levantou e disse: “Ah, rapaz branco, a heroína não é boa para você. Só os mais velhos experimentam o ópio.” Ele achou que eu estava drogado porque lhe mostrei o meu braço, e, olhando de longe, parecia que eu tinha usado drogas injetáveis.        

Comecei a ficar frustrado e com raiva por causa daquilo. Sentei, tentando manter a calma. Eu sabia que, se ficasse nervoso, o veneno percorreria a minha corrente sanguínea com mais rapidez. Minha mão direita começou a tremer, de uma forma estranha. As articulações dos dedos estavam se contraindo, involuntariamente. Aquela tremedeira subiu para o meu braço, depois para o meu rosto, e os meus dentes começaram a ranger. Não demorou muito e todos os músculos do meu corpo começaram a tremer e a se contrair, com terríveis espasmos. Eu não conseguia mais ficar sentado na cadeira, por causa dos violentos e contínuos espasmos que faziam eu me debater, cada vez que os meus músculos reagiam ao veneno. Aqueles chineses vieram correndo, e três tentaram me segurar. Mas eles não conseguiram.          

Quando cessou aquela tremedeira, um frio mortal invadiu a minha medula. Eu podia mesmo ver as trevas passando por dentro dela. Era como se a morte estivesse percorrendo o meu corpo. Eu sabia que o meu corpo estava morrendo, bem diante dos meus olhos. Eu estava incrivelmente gelado.     

Aqueles homens me enrolaram em cobertores, tentando me manter aquecido. Um deles jogou leite na minha garganta, achando que eu tinha engolido veneno. Vi um veículo no estacionamento do hotel. Eu sabia quem era o dono, pois, quando eu estava de carona, no carro de alguém, ele sempre buzinava, quando passava por mim. Implorei que me levasse para o hospital, mas ele se negou. Ele quis esperar a ambulância chegar. Eu estava tão nervoso que quis bater nele, mas eu não conseguia mover nenhum dos meus braços. Pensei em bater com a minha cabeça na dele, mas eu sabia que a adrenalina poderia me matar.         

Em poucos instantes, a ambulância chegou e Daniel apareceu, do nada, com outro segurança. Eles me pegaram nos braços, e, rapidamente, começaram a me carregar. Então, percebi que, quando saiu às pressas, Daniel tinha ido telefonar para o hospital. 

Hotel Tamarin Bay

A ambulância chegou com os faróis acesos, fazendo todo o barulho que caracteriza uma situação de emergência. Quando chegou à frente do hotel, o veículo deu meia volta e se mandou! O motorista era de um hospital para negros. Quando viu que não havia nenhum doente na frente daquele hotel chinês, obviamente ele pensou que estava no lugar errado.       

E lá ficou eu, desesperado, acabando de perder a oportunidade de ser levado para o hospital. Ainda consegui ver a ambulância, que estava prestes a desaparecer na esquina. Tentei assoviar, mas minha boca estava tão seca, que não saiu som algum. Daniel viu o que eu estava tentando fazer, e então assoviou o mais alto que ele pôde. O som ecoou no muro do hotel e estrada abaixo. O motorista da ambulância devia estar com a janela aberta, porque os brake lights vermelhos do veículo se acenderam, indicando que ele estava parando; e, para o meu grande alívio, ele começou a voltar. A ambulância era um velho Renault 4, sem o assento do passageiro ao lado do motorista, que foi retirado, para uma maca de campo ser colocada no lugar. É isso mesmo, pessoal. Esta era a ambulância!        

Mas eu não me importei com aquilo. Eu não estava nem aí. O motorista sequer saiu da ambulância. Ele abriu a porta e Daniel me pôs na maca. “Onde está a sua mãe? Como você está? Quer um cobertor? O que você tem?” Não, nenhuma pergunta me foi feita. Ele era apenas o motorista, e não disse uma palavra. Procurei não fechar os olhos, pois eu sabia que deveria ficar acordado, até tomar o antídoto. Isso se eu ainda conseguisse chegar com vida ao hospital.

   

CAPÍTULO QUATRO

O PAI NOSSO


Pai nosso, que estás nos céus

Santificado seja o teu nome

Venha o teu reino

 Seja feita a tua vontade

Assim na terra como no céu

O pão nosso de cada dia nos dá hoje

E perdoa-nos as nossas dívidas

Assim como nós perdoamos aos nossos devedores

E não nos induzas à tentação

 Mas livra-nos do mal

 Porque teu é o reino,

E o poder, e a glória

 Para sempre

Amém

(Mateus 6:9-13)

Estávamos quase chegando ao hospital, e o Renault estava subindo um morro. Meus pés estavam suspensos no ar, e o veneno já estava indo para o meu cérebro. Então, apareceu uma luz e vi um menino pequeno, de cabelos brancos como a neve. Depois vi que aquele menino tinha crescido, e que também tinha os cabelos brancos. Vendo aquela imagem, pensei: “Nossa, ele tem cabelo branco”. De repente, percebi que aquele menino era eu, e que eu estava vendo a minha vida se passar, diante de mim. Foi uma experiência assustadora ver aquelas imagens da minha vida, passando bem ali na minha frente, como num filme. As imagens eram claras como cristal, e eu as assisti com os olhos arregalados. Enquanto via, pensei: “Já ouvi falar disso, até já li sobre isso. As pessoas dizem que, pouco antes de morrer, o filme da nossa vida passa diante de nós.”

Meus pensamentos não me deixavam. “Sou jovem demais para morrer. Por que fui mergulhar? Que idiota que eu fui. Eu deveria ter ficado em casa.” Agora eu sabia que a morte era certa. Eu mal podia ouvir as batidas do meu coração. Deitado lá, fiquei me perguntando: “O que vai acontecer se eu morrer? Existe alguma coisa depois da morte? Se morrer, para onde irei?”     

Então, vi uma imagem clara da minha mãe. Era como se ela estivesse falando aquelas palavras que disse há tanto tempo: “Ian, não importa se você está longe de Deus, não importa o que você tenha feito de errado, se você clamar a Deus, do seu coração, Ele vai te ouvir e te perdoar.”   

No meu coração, eu estava dizendo: “E eu lá acredito em Deus? E eu vou orar?” Eu era quase um ateu. Eu não acreditava em nada. Apesar disso, eu estava frente a frente com aquela imagem da minha mãe. Mais tarde, quando voltei para a Nova Zelândia, conversei com a minha mãe sobre o que tinha acontecido comigo. No dia em que tudo aconteceu, ela disse que estava acordada desde as primeiras horas da manhã. Deus tinha falado com ela da seguinte maneira: “Ian, seu filho mais velho, está prestes a morrer. Ore por ele agora.” E ela estava orando por mim naquele exato momento em que estava morrendo, deitado naquela ambulância.      


A mãe de Ian

Mas é claro que as orações dela não poderiam salvar a minha alma. Ela não podia me levar para o céu, mas eu sabia que, naquele momento, eu precisava orar. Eu só não sabia o que orar ou para quem orar. Para qual deus eu devia orar? Buda? Kali? Shiva? Havia milhares deles. Embora não estivesse vendo Buda, Krishna ou nenhum outro deus ou homem, eu vi minha mãe – e minha mãe seguia Jesus Cristo. Eu me perguntava o que deveria orar. Fazia anos que eu não orava. O que orar numa situação daquelas? Qual oração se faz quando se está prestes a morrer?    

Então lembrei que, quando criança, minha mãe nos ensinou o “Pai Nosso”. “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu...” Eu conhecia essa oração quando era criança – toda noite, eu apostava com os meus irmãos quem conseguia dizê-la o mais rápido que pudesse! Essa era a única oração que eu conhecia. Comecei a recitá-la, mas eu não conseguia lembrar. Era como se o veneno tivesse ido para a minha cabeça e inibido a minha capacidade de pensar. O veneno estava fazendo a minha mente parar de funcionar. Foi horrível. Eu confiava muito na minha mente, mas, de repente, ela começou a falhar. Deu branco. Não respondia.        

Enquanto estava lá deitado, lembrei que minha mãe dizia que não se ora com a mente, mas com o coração. Então, pedi que Deus me ajudasse a orar. Imediatamente, esta oração surgiu de dentro de mim, do meu espírito: “Perdoa-nos as nossas dívidas”. E continuei: “Deus, peço que perdoes os meus pecados. Tenho feito tantas coisas erradas. E sei que elas são erradas, pois minha consciência está me dizendo. Peço que o Senhor perdoe todos os meus pecados. Não sei como o Senhor irá fazer isso, não faço ideia de como o Senhor irá me perdoar, mas, por favor, perdoe os meus pecados.” Então, comecei a entender a oração. Eu deveria querer começar de novo. “Deus, perdoe-me.”       

Quando dizia essas palavras, lembrei de outro trecho. “Assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” Entendi que tinha de perdoar os que me ofenderam. Pensei: “Bom, eu não guardo rancores. Muitas pessoas falaram mal de mim pelas costas e me caluniaram – mas eu as perdoo.” Então, ouvi esta pergunta: “Você perdoa o indiano que te botou para fora do carro e os chineses que não quiseram te levar para o hospital?” Pensei: “Você só pode estar brincando! Tenho outros planos para eles!” A partir daí, não lembrei mais de nenhum trecho da oração. Eu sabia que não tinha escolha. Pensei: “Está bem, eu os perdoo. Se você me perdoa, eu os perdoo. Jamais porei a mão neles.”    

Lembrei do próximo trecho da oração. “Seja feita a tua vontade.” Nos últimos vinte anos, eu tinha feito do meu jeito. Falei: “Deus, não faço ideia de qual seja a tua vontade – sei que não se deve fazer o mal, mas não faço ideia de qual seja a tua vontade. Se souber, descobrirei qual é a tua vontade para a minha vida, e irei praticá-la. Prometo te seguir de todo o meu coração se eu souber qual é a tua vontade.”   

Naquela época, eu não sabia, mas estava orando para ser salvo. Não eram palavras que vinham da minha mente, mas do meu coração. Eu orava: “Deus, perdoe as maldades e perversidades que tenho feito. Deus, purifica-me. Eu perdoo todos aqueles que me ofenderam. Jesus Cristo, vou fazer a tua vontade – seja feita a tua vontade. Vou te seguir.” Essa era a oração de um pecador, uma oração de arrependimento a Deus, e ela foi essencial em tudo o que aconteceria comigo.    

Uma paz incrível invadiu meu coração. Era como se o medo tivesse saído de mim, aquele medo do que estava para acontecer. Eu ainda estava morrendo, eu sabia disso, mas isso não me preocupava mais. Eu tinha feito as pazes com o meu Criador. Pela primeira vez, eu sabia que tinha um relacionamento com Deus. Eu nunca tinha dado atenção a Deus antes, mas agora ele estava falando comigo. Ninguém mais poderia ter feito eu me lembrar da oração do Pai Nosso.   

CAPÍTULO CINCO O APELO FINAL

Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso  o caminho que conduz à perdição,  e muitos são  os que entram por ela; E porque estreita  é a porta, e apertado o caminho  que leva à vida, e poucos  há que a encontrem.

Mateus 7:13-14

 (ACF)

A ambulância virou a esquina e entrou no hospital. Finalmente, cheguei! O motorista me pôs em uma cadeira de rodas e me levou correndo para a emergência. Uma enfermeira começou a checar a minha pressão. Enquanto eu estava lá sentado, observando aquela enfermeira, ela olhou para o medidor de pressão e começou a dar pancadas nele. Pensei: “Que hospital é este?” Era um antigo hospital do exército, utilizado na Segunda Guerra Mundial, que os ingleses haviam cedido para a comunidade crioula. Parecia ter sido construído em 1945 e quase não tinha recebido manutenção.

Era um local bastante sujo e gasto pelo uso. E eu estava lá, no meio daquela sujeira.      

A enfermeira deu um tapa no medidor outra vez. Percebi que não havia nada de errado com o aparelho, o problema é que o meu coração não estava batendo forte o suficiente para registrar a pressão. Ela largou aquele medidor e começou a mexer no armário, tentando achar outro que aparentasse ser mais novo. Ela encontrou um, puxou para fora, deu um tapa, depois pôs em mim e começou a bombeá-lo. Ela olhou para mim, depois olhou para o medidor. Eu estava com os olhos abertos, e eu sabia que ela estava se perguntando por que eles estavam abertos. Uma pessoa com aquela pressão arterial não deveria estar de olhos abertos. Mas eu estava lutando. Eu estava lutando com todas as minhas forças para continuar vivo.           

O motorista da ambulância, percebendo que a situação era grave, tirou o medidor do meu braço e me levou correndo para os médicos. Chegando lá, havia dois médicos indianos, que estavam sentados, cochilando, de cabeça baixa. Um deles me perguntou, em francês: “Qual o teu nome? Onde você mora? Qual a tua idade?” Era um médico jovem, e ele sequer olhou para mim. Olhei para o outro médico, que era mais velho. Como já tinha um pouco de cabelo branco, pensei: “Esse já é médico há algum tempo, ele deve saber como me ajudar.” Então, fiquei esperando. O médico mais novo parou de conversar e ergueu os olhos. Eu não estava incomodado com ele, mas sim com o fato de estar esperando o médico mais velho levantar a cabeça. Ele levantou. Eu não sabia se teria forças suficientes para falar. Olhei dentro dos olhos dele, procurando expressar o meu desespero. Murmurei: “Estou quase morrendo, preciso tomar antitoxina imediatamente.” Ele nem se mexeu. Eu não tirava os olhos dele, e ele ficou ali me olhando.               

A enfermeira entrou, trazendo um papel. O médico mais velho olhou para aquele papel, olhou para mim, e estremeceu. Pude ver as feições dele se contorcendo, em sinal de desaprovação. Ele empurrou o motorista da ambulância, para tirá-lo da frente, pegou na cadeira de rodas e começou a me levar às pressas, corredor abaixo. Percebi ele gritar algo, mas todo aquele barulho eram apenas murmúrios para mim. Eu estava começando a perder os sentidos.        

O médico entrou correndo em uma sala onde havia vidros de remédio e equipamentos médicos. Em seguida, fui rodeado por enfermeiras, médicos e ajudantes. Finalmente, estavam fazendo alguma coisa por mim. Uma enfermeira pôs soro no meu braço. O médico disse, próximo do meu rosto: “Não sei se você está me ouvindo, filho, mas vamos tentar salvar a sua vida. Mantenha os olhos abertos... Vamos, filho, lute contra o veneno. Tente ficar acordado; estamos lhe dando glicose, para desidratação.” Com um sotaque de Oxford, o médico disse para as enfermeiras: “Antitoxinas, para neutralizar o veneno.” Uma enfermeira inseriu uma agulha, de um lado, e outra enfermeira estava inserindo outra agulha, do outro. Eu não sentia as agulhas, mas eu podia ver as enfermeiras fazendo o trabalho. Uma outra enfermeira se ajoelhou, próxima dos meus pés, e começou a dar tapas em uma das minhas mãos, o mais forte que ela podia. Pensei: “O que ela está fazendo?” Mas eu não me importava, queria apenas que eles metessem as agulhas em mim!              

Uma enfermeira, que estava atrás de mim, começou a encher uma seringa enorme. Depois tirou o ar. Quando foi aplicá-la no meu braço, a enfermeira não estava conseguindo enxergar as veias. Finalmente, ela começou a aplicar o líquido. Minha veia ficou inchada, como um pequeno balão. Percebi o quão nervosa a enfermeira estava quando ela aplicava o líquido, pois a agulha estava balançando tanto que, se continuasse daquele jeito, minha veia iria estourar.    

Ela tirou aquela agulha e alguém lhe entregou outra. Ao aplicar, minha veia inchou outra vez. A enfermeira olhou para o médico e perguntou: “Outra?” O médico balançou a cabeça, em sinal afirmativo. Então, ela aplicou mais uma vez. Outra enfermeira começou a massagear a minha veia, tentando fazer o líquido circular, mas ela não conseguiu, porque a veia se movia se um lado para o outro. A enfermeira não conseguiu fazer a antitoxina circular pela minha corrente sanguínea, pois o líquido estava parado.   

Era evidente que o meu coração não estava bombeando o sangue da maneira normal. Minhas veias estavam entrando em colapso. Como tinha estudado veterinária na minha graduação, eu entendia um pouco de fisiologia e de anatomia. Eu sabia o que estava acontecendo, mas eu não podia fazer nada. Eu sabia que estava entrando em coma. Eu estava totalmente paralisado, e meu coração mal estava batendo. Quando observava as agulhas, senti que estava piorando cada vez mais. Eu não conseguia mais me comunicar, não conseguia dizer uma palavra, mas eu ainda podia ouvir o que eles estavam falando sobre mim.    

Eu nem imaginava que tinha sido picado por uma box jellyfish. Essa água-viva é o segundo animal mais venenoso e mais mortal do mundo. Só em Darwin, na Austrália, sessenta pessoas já morreram nos últimos vinte anos, com uma única picada desse animal. Durante seis meses, são postas placas que indicam perigo (aquelas com uma caveira e dois ossos cruzados) nas praias de Darwin, com o objetivo de advertir os banhistas de não entrarem na água para nadar. No meu corpo, eu tinha veneno suficiente para matar mais de cinco pessoas. Geralmente, a pessoa morre dentro de quinze minutos, após ter sido picada. E eu não tinha veneno somente em um músculo. Eu tinha nas minhas veias.           

O médico estava dizendo para eu não ter medo. Mas eu podia ver o desespero nos olhos dele. Eu estava deitado naquela cama, com o soro ao meu lado. Aquele soro estava trazendo líquido de volta para o meu corpo, e minha testa começou a suar. O médico a enxugou e saiu da sala por alguns minutos. Deitado lá, senti o suor entrar nos meus olhos, como lágrimas, e minha visão começou a ficar embaçada.  

Eu sabia que tinha de manter os olhos abertos. Eu quis que o médico voltasse e enxugasse o meu rosto, mas ele não voltou. Tentei falar, mas meus lábios não se mexeram. Tentei levantar a cabeça, mas ela não se movia. Pisquei algumas vezes, para ver se a visão voltava ao normal. Continuei piscando, e melhorou um pouco. De repente, dei um suspiro. Era como um daqueles suspiros de alívio. Então, percebi que algo tinha acontecido.    


CAPÍTULO SEIS

AS TREVAS

A luz veio ao mundo,

e os homens amaram mais as trevas do que  a luz, porque as suas obras eram más. João 3:19 (ACF)

Muitos...  serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.

Mateus 8:12 (ACF)

Eu sabia que algo tinha acontecido, pois minha luta para continuar vivo tinha acabado. Eu sabia que estava em algum lugar. Eu não tinha fechado os olhos e dormido. Eu sabia que realmente tinha ido para algum lugar. Por vinte minutos, eu me senti como se estivesse flutuando. Mas, quando fechei os olhos, não me senti mais flutuando – eu tinha morrido.     

Quando o homem morre, a Bíblia diz, no Livro de Eclesiastes, que o espírito volta para Deus, que foi quem o deu, enquanto que o corpo volta para a terra, de onde saiu. Eu sabia que o meu espírito tinha saído do meu corpo e que eu estava em algum lugar, mas não sabia que tinha morrido.   

Parece que cheguei a um lugar enorme, amplo e tenebroso, onde havia muitas cavernas. Eu estava lá parado. Era como se eu tivesse acordado de um pesadelo, após ter dormido na casa de alguém, e estivesse me perguntando onde estava todo mundo. Eu estava procurando o interruptor da luz, mas parece que eu não conseguia encontrá-lo. Fiquei imaginando por que o médico tinha apagado as luzes. Com as mãos estendidas, tateei ao meu redor, tentando achar a lâmpada de parede, mas não consegui. Então, percebi que também não estava encontrando a minha cama. Eu estava andando de um lado para o outro, mas não esbarrava em nada – eu sequer conseguia enxergar o que estava na minha frente.          

Fiquei ansioso para saber onde estava. Comecei a caminhar por aquele lugar. Era tão escuro que eu não conseguia enxergar a minha mão, na frente do meu rosto. O frio também era intenso. Levantei a mão, para saber até onde eu podia enxergar, e a pus na minha frente. Ao aproximá-la do meu rosto, percebi que minha mão atravessou a minha cabeça. Foi uma experiência terrível. Eu sabia que estava lá e que aquele era eu mesmo, Ian McCormack, mas sem um corpo físico. Eu estava sentindo que tinha um corpo, mas eu não podia tocar nele. Eu era um ser espiritual, e o meu corpo físico tinha morrido, mas eu estava mais vivo e muito mais ciente de que tinha cabeça, braços e pernas, mas não podia mais tocá-los. Deus é espírito, um ser espiritual invisível, e nós fomos criados à sua imagem. 

“Mas onde é que eu estou?”, pensei. Enquanto estava lá parado, naquela escuridão, fui invadido por um medo terrível. Talvez você já tenha caminhado sozinho, à noite, por uma estrada deserta, ou já tenha chegado em casa sozinho, no escuro, sentindo que estava sendo observado por alguém.

Você já passou por isso? Naquela escuridão, senti o mal vir sobre mim. A escuridão parecia se alastrar por tudo. Eu sabia que estava sendo observado. Uma terrível atmosfera maligna enchia aquele lugar.

Aos poucos, percebi que havia outras pessoas se mexendo, ao meu redor, que estavam na mesma situação que a minha. Eu não dizia uma palavra, mas eles sabiam o que eu estava pensando, tanto é que começaram a responder aos meus pensamentos. Naquela escuridão, ouvi uma voz gritar comigo: “Cale a boca!” Logo em seguida, ouvi outra voz gritando: “Você merece estar aqui!” Tentei me proteger com os braços. Pensei: “Onde estou?” E uma terceira voz respondeu: “Você está no inferno. Agora cale-se!” Eu estava apavorado – com medo de me mover, respirar ou falar. Percebi que talvez eu merecesse mesmo aquele lugar. 

Algumas pessoas têm a estranha ideia de que o inferno é um lugar de festa. Eu também pensava assim. Eu achava que, no inferno, as pessoas podiam fazer tudo que não podiam fazer na terra. Isso é tão distante da realidade. Aquele lugar era o mais assustador de todos em que já estive. E aquelas pessoas não podiam fazer nada do que estava nos seus perversos corações. Elas não podiam fazer nada. Não havia do que se gabar. Não há nada para se dizer quando se sabe que o julgamento está chegando.  

O tempo não existe naquele lugar. As pessoas que lá estavam não sabiam dizer que horas eram. Elas não sabiam dizer se já estavam lá há dez minutos, dez anos ou dez mil anos. Elas não tinham noção de tempo. Aquele lugar era assustador. A Bíblia diz que há dois reinos: o Reino as Trevas, comandado por Satã, e o Reino da Luz. O livro de Judas diz que o lugar de trevas não foi originalmente preparado para as pessoas, mas para os anjos que se rebelaram contra Deus. Aquele lugar era o mais horrível e assustador em que já estive. Eu jamais queria ir para lá, tampouco desejaria que o meu maior inimigo fosse para o inferno.  

Eu não tinha a menor ideia de como se saía daquele lugar. Como se sai do inferno? Eu já tinha orado e estava me perguntando por que tinha ido para lá. Eu tinha orado pouco antes de morrer, e tinha pedido que Deus perdoasse os meus pecados. Nesse momento, eu já estava chorando. Clamei a Deus: “Por que estou aqui? Eu pedi perdão pelos meus pecados, por que estou aqui? Entreguei meu coração a ti, por que estou aqui?”  

Então, uma luz forte brilhou sobre mim e literalmente me tirou daquelas trevas. A Bíblia diz, no livro de Isaías, que uma grande luz brilhou nas trevas, sobre aqueles que estavam caminhando no vale da sombra da morte, e os levou para o caminho de paz e retidão. Enquanto eu estava lá parado, um incrível raio de luz surgiu, irrompeu aquelas trevas e brilhou sobre o meu rosto. Aquela luz começou a me cercar e uma sensação de alívio me invadiu. Fui levantado do chão e comecei a subir, dentro daquela forte luz branca. Eu parecia uma partícula de poeira iluminada pela luz do sol.


CAPÍTULO SETE A LUZ

Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz,

é quem resplandeceu em nossos corações,

para iluminação do conhecimento da glória de Deus,  na face de Jesus Cristo.

II Coríntios 4:6 (ACF)

Olhei para cima e vi que estava sendo tragado por uma grande abertura em forma de círculo, que estava lá no alto, longe de mim – era um túnel. Eu não queria olhar para trás, pois tive medo de cair de volta nas trevas. Eu estava muito contente de ter saído daquela escuridão.   

Na entrada daquela abertura, percebi que a luz emanava do fim do túnel. Era uma luz indefinidamente brilhante, como se ela fosse o próprio centro do universo, a fonte de toda luz e de todo poder. Brilhava mais do que o sol, era mais radiante do que qualquer diamante, brilhava mais do que o raio laser. Apesar disso, eu estava conseguindo olhar para ela. Quando fixei o olhar naquela luz, fui literalmente tragado por ela, tragado como uma mariposa diante de uma chama. Eu estava sendo conduzido pelo ar, numa velocidade incrível, em direção ao fim do túnel – em direção à fonte daquela luz.          

Enquanto estava sendo trasladado pelo ar, vi contínuos raios daquela intensa luz saírem da fonte e começarem a vir na minha direção. O primeiro raio trouxe uma incrível sensação de alegria e conforto. Era como se aquela luz não fosse apenas material, mas fosse dotada de emoção, fosse algo que estivesse “vivo”. Aquele raio de luz chegou até mim e me encheu de um sentimento de amor e acolhimento.          

Em seguida, outro raio de luz chegou até mim. Este raio me trouxe uma paz completa e total. Por muitos anos, eu tinha buscado a “paz de espírito”, mas havia apenas encontrado alguns momentos passageiros dela. Na escola, eu tinha lido desde o poeta inglês Keats até Shakespeare, tentando alcançar a paz de espírito. Tentei achá-la no álcool, nos estudos, nos esportes, nos relacionamentos com as mulheres, nas drogas; experimentei tudo que estivesse ao meu alcance para ter paz e satisfação na minha vida, mas nunca tive. Naquele momento, do alto da cabeça até a planta dos meus pés, eu estava totalmente em paz.    

Nas trevas, eu não conseguia enxergar as mãos na frente do meu rosto, mas, para o meu espanto, quando olhei para o lado, lá estavam a minha mão e o meu braço – e eu podia ver através deles. Eu estava transparente como um espírito; meu corpo estava cheio da mesma luz que estava vindo do fim daquele túnel e brilhando sobre mim. Era como se eu estivesse cheio de luz. Assim que cheguei perto do fim do túnel, um terceiro raio veio da fonte principal daquela luz. Uma alegria total invadiu o meu ser quando aquele raio me atingiu. Foi uma sensação tão ímpar que eu tinha consciência que estava prestes a ver algo que seria a experiência mais emocionante da minha vida.    

Minha mente não podia sequer imaginar o lugar que eu estava indo, e não tenho palavras para descrever o que vi. Cheguei ao fim do túnel e parece que eu estava bem na frente da fonte de toda luz e poder. Não consegui enxergar nada diante daquela incrível luz. Parecia um fogo branco ou uma montanha de diamantes brilhando de uma forma indescritível. Imediatamente, imaginei que aquilo fosse uma aura, ou então uma glória. Eu já tinha visto algumas figuras de Jesus com uma pequena nuvem de glória brilhando em volta do rosto, mas aquela que eu estava vendo envolvia tudo, de forma impressionante.           

Jesus morreu para nos resgatar daquele lugar que eu tinha acabado de sair. Ele ressuscitou dos mortos e subiu ao céu, e agora está assentado à direita do Pai. Foi glorificado, revestido de luz, e nele não há trevas. Ele é Rei da Glória, Príncipe da Paz, Senhor dos Senhores e Rei dos Reis. Penso que, naquele instante, eu estava vendo a glória do Senhor. No Antigo Testamento, consta que Moisés, no alto do Monte Sinai, viu a glória do Senhor. Quando Moisés desceu do monte, seu rosto brilhava tanto por causa da glória do Senhor que ele teve de usar um véu, para que o povo não ficasse com medo. Ele tinha visto a glória de Deus. Paulo ficou cego por causa de uma gloriosa luz que apareceu na estrada de Damasco. Era a glória de Jesus. E lá estava eu, vendo aquela incrível luz de glória.     

Enquanto estava lá, começaram a surgir perguntas no meu coração. “Isto é uma força, como dizem os budistas, um carma, o Yin Yang? É um poder natural, uma fonte de energia ou é alguém que está lá?” Tudo isso eu estava me perguntando.    

Enquanto pensava essas coisas, uma voz falou comigo, do centro daquela luz. Era a mesma voz que eu tinha ouvido, no começo da noite. A voz disse: “Ian, você quer voltar?” Fiquei chocado em saber que havia alguém no centro daquela luz, e, quem quer que fosse, sabia o meu nome. Era como se quem estava lá pudesse ouvir os meus pensamentos mais íntimos; pudesse ouvi-los como se eu estivesse falando. Então, pensei comigo: “Voltar? Voltar para onde? Onde estou?” Dei uma olhada rápida para trás e vi o túnel se dissipando nas trevas. Pensei que estava sonhando, na minha cama do hospital. Fechei os olhos. “Isto é real? Estou mesmo aqui, eu, Ian, vivendo algo real?” Então, o Senhor falou outra vez. “Você quer voltar?” Respondi: “Se estou fora do corpo e não sei que lugar é esse, quero sim voltar.” A resposta que recebi foi esta: “Se quiser voltar, Ian, você deve começar a ver por uma nova luz.”

     

Quando ouvi as palavras “ver por uma nova luz”, tive um clique. Lembrei de ter ganhado um cartão de natal, que dizia: “Jesus é a luz do mundo” e “Deus é luz e não há trevas Nele”. Naquela ocasião, eu tinha meditado nessas palavras. Eu tinha acabado de sair das trevas, e, com certeza, não havia trevas naquele lugar onde estava. Percebi, então, que aquela luz poderia estar vindo de Jesus, e, se fosse isso mesmo, o que eu estava fazendo lá? Eu não merecia estar naquele lugar.   


CAPÍTULO OITO

AS ONDAS DE AMOR


E conhecer o amor de Cristo,  que excede todo conhecimento,

para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus.

Efésios 3:19 (NVI)

É isso que Deus é: luz. Ele sabia o meu nome e os mais profundos segredos da minha mente e do meu coração. Pensei: “Se Deus é isso, então Ele deve saber tudo que já fiz na minha vida”. Sentime totalmente exposto e transparente diante de Deus. Você pode usar máscaras na frente das pessoas, mas, diante de Deus, você não pode usá-las. Senti-me envergonhado e sem saída. Pensei: “Eles devem ter se enganado e trazido a pessoa errada para cá. Eu não devia estar aqui. Não sou uma pessoa boa. Eu deveria estar em um lugar bem longe ou voltar para as trevas, que é onde pertenço”.         

Tentei voltar. Quando comecei a caminhar, devagar, em direção ao túnel, um raio de luz saiu de Deus e veio bem na minha direção. A primeira coisa que pensei foi que aquele raio fosse me lançar de volta no poço, mas, para minha surpresa, fui inundado por uma onda de imenso amor. Eu jamais esperava por isso. Em vez de receber uma sentença, fui lavado com puro amor. Um amor legítimo, sincero, limpo, infinito e não merecido. Aquele amor começou a me preencher de dentro para fora, fazendo minhas mãos e o meu corpo formigarem. Fiquei bastante assustado. Pensei: “Talvez Deus não saiba todas as coisas que tenho feito”. Eu achava que deveria contar a Ele todas as coisas repugnantes que fiz na minha vida de trevas. Mas era como se Deus já tivesse me perdoado e a intensidade do Seu amor só aumentava. Mais tarde, Deus me mostrou que, quando eu havia pedido perdão, na ambulância, foi naquele momento que Ele me perdoou e lavou o meu espírito de todo o mal.              

Comecei a chorar incontrolavelmente, quando aquele amor ia ficando cada vez mais forte. Era algo tão puro e legítimo, não havia imperfeição alguma. Fazia anos que eu não me sentia amado. A última vez que me lembrava de ter sido amado por alguém foi pela minha mãe e pelo meu pai, quando eu ainda estava em casa. Mas eu tinha saído pelo mundo afora e descoberto que quase não havia amor por aí. Vi coisas que pensei ser amor, mas sexo não é amor, ele só nos destrói. Os desejos da carne são como um fogo que nos corrói por dentro; é um desejo incontrolável que nos destrói de dentro para fora. Mas aquele amor estava sarando o meu coração e então comecei a entender que há esperança para a humanidade naquele amor. A misericórdia de Deus sempre se renova antes de Ele julgar.             

Os raios de luz pararam e me envolveram, enchendo-me de amor. Havia um silêncio total naquele lugar. Eu estava tão perto que pensei que poderia ver Deus face a face se começasse a subir por aqueles raios de luz que vinham Dele. Seu apenas pudesse vê-lo face a face, eu conheceria a verdade. Eu já estava cansado de ouvir mentiras e de ser enganado. Eu queria conhecer a verdade. Estive em toda parte, a fim de encontrá-la, mas ninguém foi capaz de me falar sobre ela. Achei que, se pudesse subir até lá e ver Deus face a face, eu conheceria a verdade e o significado da vida.       

Será que posso subir? Não havia voz alguma dizendo que eu não podia. Então, comecei a subir por aquela luz. Era como se eu estivesse passando entre véus cintilantes, que brilhavam de uma forma tremenda, como diamantes ou estrelas. Enquanto caminhava, aquela luz continuava tocando o mais profundo do meu ser. Ela estava tocando o meu interior, estava sarando o meu coração sujo.        

Comecei a olhar para a parte mais brilhante daquela luz. No centro dela, estava um homem usando vestes brancas que iam até o tornozelo, que ofuscavam a vista, de tanto que brilhavam. Consegui ver os pés dele. Estavam descalços. As roupas daquele homem não tinham sido fabricadas por mãos humanas. Eram como roupas feitas de luz. Quando ergui os olhos, consegui ver o peito dele e os braços, que estavam estendidos, como se estivessem me dando as boas vindas. Olhei para o rosto dele. Brilhava tanto; parecia brilhar cerca de dez vezes mais do que qualquer tipo de luz que eu já tinha visto. Aquela luz fazia o brilho do sol parecer fraco e pálido. O brilho era tão forte que eu não consegui observar as feições do rosto dele. Senti que aquela luz emitia pureza e santidade.         

Eu sabia que estava diante da presença do Deus Todo Poderoso – ninguém mais, a não ser Deus, poderia ser tudo aquilo. Pureza e santidade continuaram a emanar da face Dele, e eu comecei a senti-las entrando em mim. Eu queria chegar mais perto, para ver o rosto Dele. Eu não estava com medo, pelo contrário, eu me sentia totalmente livre para ir em direção a Ele. Quando estava a apenas alguns metros de distância, tentei olhar através da luz que estava ao redor do rosto Dele, mas Ele se virou para o lado, e, quando fez isso, toda aquela luz O acompanhou.    


CAPÍTULO NOVE

A PORTA E A DECISÃO

Eu sou a porta;

se alguém entrar por mim, salvar-se-á,

e entrará, e sairá, e achará pastagens.

O ladrão não vem senão  a roubar, a matar, e a destruir;

eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.

Eu sou o bom Pastor;

o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas.

João 10:9-11 (ACF)

Bem atrás de Jesus, havia uma abertura em forma de círculo, igual a do túnel por onde eu tinha acabado de vir. Através daquela abertura, vi um mundo totalmente novo se descortinando diante de mim. Senti-me como se estivesse na entrada do paraíso, tendo um vislumbre da eternidade.    

Era algo completamente intacto. Bem na minha frente, havia campos e pastos verdejantes. Até a grama daquele lugar emanava a mesma luz e vida que eu tinha visto na presença de Deus. Não havia doença alguma naquelas plantas. Parecia que a grama brotaria outra vez se fosse pisada. No centro daquele campo, vi um rio de águas cristalinas, com árvores em ambas as margens, contornando a paisagem. À minha direita, havia montanhas ao longe, e o céu, logo acima, era azulclaro. À minha esquerda, havia colinas verdejantes e lindas flores coloridas. O paraíso! Eu tinha plena consciência de que pertencia àquele lugar. Senti-me como se tivesse acabado de nascer pela primeira vez. Cada parte do meu corpo sabia que eu estava em casa. Na minha frente, estava a eternidade – a um passo de mim.     

Quando tentei passar para aquele mundo novo, Jesus se pôs na entrada. A Bíblia diz que Jesus é a porta, e que, por intermédio Dele, você entrará e achará pastos verdejantes. Ele é a porta para a vida. Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por Ele. Ele é o único caminho. Existe apenas uma única porta que conduz ao Reino de Deus, e essa porta é estreita. Poucos a encontram. A maioria encontra a porta que conduz ao inferno.      

Jesus me fez esta pergunta: “Ian, agora que viu, você quer voltar?” Pensei: “Voltar? Claro que não. Por que eu voltaria? Por que vou querer voltar para um mundo de miséria e ódio? Não, não tenho nenhum motivo para voltar. Não tenho esposa, filhos, nem ninguém que me ame de verdade. Você é a primeira pessoa que me amou de verdade do jeito que sou. Quero ficar na sua presença para sempre. Quero continuar no paraíso”. Mas Jesus nem se mexeu. Então, olhei para trás, pensando dizer “Adeus, mundo cruel, estou fora daí!”     

Mas, quando olhei para trás, apareceu uma visão na frente do túnel. Vi claramente que era a minha mãe. Quando a vi, percebi o erro que tinha cometido; havia uma pessoa que me amava – minha querida mamãe. Ela não só me amava, mas eu sabia que ela tinha orado por mim e tentado me mostrar Deus. No meu orgulho e arrogância, eu debochava da fé dela. Mas, apesar de tudo, ela permanecia firme em acreditar que há um Deus, um paraíso e um inferno. Comecei a perceber como eu seria egoísta se ficasse no paraíso e deixasse a minha mãe acreditando que eu tinha ido para o inferno. Ela não faria ideia de que, no leito de morte, eu tinha feito uma oração, me arrependido dos meus pecados e aceitado Jesus como meu Senhor e Salvador. Ela receberia apenas uma caixa com um corpo sem vida, vinda de Mauritius.     

Então eu disse: “Deus, existe apenas uma pessoa que me faz querer voltar, e essa pessoa é a minha mamãe. Quero contar que tudo o que ela acredita é verdade; que existe um Deus vivo; que existe um paraíso e um inferno; que existe uma porta e que Jesus Cristo é essa porta, e que é somente através Dele que nós podemos entrar no céu.” Quando olhei de novo para o túnel, vi, atrás da minha mãe, o meu irmão e a minha irmã, meus amigos, e uma multidão de outras pessoas. Deus estava me mostrando que havia uma multidão de pessoas que ainda não sabiam, e que continuariam não sabendo, a não ser que eu contasse a eles. Respondi: “Eu não amo aquelas pessoas.” Mas Ele respondeu: “Eu as amo e quero que todas elas venham a mim e me conheçam.”  

Então, o Senhor falou: “Se você voltar, você deve enxergar as coisas por uma nova luz.” Entendi que agora eu deveria enxergar como o Senhor enxerga, com olhos de amor e perdão. Eu precisava ver o mundo como Ele vê – pelos olhos da eternidade. “Deus, como faço para retornar?”, perguntei, “Tenho de voltar por aquele túnel escuro e entrar no meu corpo? Como faço para voltar? Não tenho a menor ideia.” Ele respondeu: “Ian, curve a cabeça… sinta o líquido saindo dos seus olhos… agora abra os olhos e veja.” 

CAPÍTULO DEZ O RETORNO

Pois tu livraste a minha alma da morte;  não livrarás os meus pés da queda,  para andar diante de Deus  na luz dos viventes?

Salmo 56:13 (ACF)

Na mesma hora, voltei para o meu corpo, que estava com a cabeça tombada para a direita e com um olho aberto. Na minha frente, estava um jovem médico indiano, com o meu pé direito na mão e fincando um pontudo instrumento na sola, procurando por sinais vitais. Ele nem percebeu que eu estava vivo outra vez e que estava olhando para ele. Fiquei imaginando o que era aquilo que ele estava fazendo. Então, caiu a ficha: “Ele acha que estou morto!” Na mesma hora, o médico parou o que estava fazendo e olhou para o meu rosto. Assim que os nossos olhares se cruzaram, o terror se estampou no rosto do médico, como se tivesse acabado de ver um fantasma. Ele ficou branco como uma folha de papel e mal se aguentava em pé.          

Nessa hora, eu estava tremendo e pedi que Deus me desse forças para virar a cabeça para a esquerda, para que pudesse olhar para o outro lado. Quando comecei lentamente a virar minha cabeça para o lado, vi enfermeiras e auxiliares na porta, olhando para mim, com um misto de admiração e espanto. Ninguém dizia uma palavra. Eu já estava morto há cerca de 20 minutos, e estava sendo preparado para ser levado ao necrotério. Eu estava fraco. Fechei os olhos e abri em seguida, para verificar seu eu estava mesmo no meu corpo. Eu não tinha certeza se estava vivo.   

Eu ainda estava paralisado. Pedi a Deus que me ajudasse. Enquanto orava, senti um formigamento nas minhas pernas, seguido por um calor confortante. Continuei a orar, enquanto o médico estava lá parado, balançando a cabeça. O calor se alastrou para o meu corpo e braços. Deus estava me restaurando! Eu estava tão cansado. Fechei os olhos outra vez e caí em um sono profundo.  

Dormi até a tarde do próximo dia. Quando acordei, vi meu amigo Simon, do lado de fora do meu quarto, olhando pela janela. Ele parecia pálido e estava balançando a cabeça. Ele não acreditava que eu estava vivo. Ele tinha me acompanhado até o hospital e estava com um amigo meu, da Nova Zelândia. “Então, você teve uma noite ruim, não é?” Essa foi a pergunta do meu amigo, que estava com Simon. “Sim, parceiro”, respondi, “Não faço ideia do que houve.” Eu não queria dizer: “Na verdade – morri!” Eu ainda não tinha certeza se aquilo tudo tinha mesmo acontecido. Eu não queria que eles dissessem: “Já pode sair do quarto – você se dopou demais e agora o efeito já passou”.    

“Este lugar tem cheiro de banheiro”. Eles disseram. “Vamos te tirar daqui e tomar conta de você.” Não concordei – eu queria ficar no hospital, mas eles pularam a janela e me pegaram. O médico chegou e tentou impedi-los, pondo-se na frente da janela. Mas eles o empurraram e o tiraram do caminho. Um táxi estava lá esperando. Simon hesitou em entrar no carro comigo, porque ele ainda estava com medo de que eu fosse um fantasma. Eles me levaram para o meu bangalô na praia e me puseram na cama. Então eles foram direto para a sala e começaram a comemorar!     

Eu estava exausto e faminto. Dormi de novo e acordei no meio da noite, tremendo e suando. Meu coração estava atemorizado. Deitado, eu olhava fixamente a parede. Virei de um lado para o outro, para ver se descobria o que estava me assustando. Pelo meu mosquiteiro e pelas barras de aço da janela, vi sete ou oito pares de olhos me observando. Aqueles olhos irradiavam uma luz vermelha. Em vez de redonda, a pupila deles tinha a forma de fenda, como as de um gato. Eles pareciam ser metade humano, metade animal. “Mas o que é isso?” Eles olhavam dentro dos meus olhos, e eu olhava dentro do deles. Ouvi um sussurro: “Você é nosso e nós vamos voltar.” “Não, não vão!”, chorei. Peguei minha lanterna e acendi na direção daqueles olhos. Não havia nada lá – mas eu sabia que tinha visto.     

Fiquei imaginando se não tinha ficado louco. Comecei a me sentir como um débil mental. Tentei manter a calma e me convencer de que não estava ficando louco. Eu estava com aquela sensação desde as últimas 24 horas. “Deus, o que está acontecendo?”, falei. Então, Ele me mostrou tudo o que tinha acontecido comigo. Era como se Deus estivesse fazendo eu ver a minha própria mente. Quando acabou, perguntei: “O que eram aquelas coisas que pareciam querer me atacar?” Ele respondeu: “Ian, lembre-se da oração do Pai Nosso”. Tentei lembrar, mas não consegui. Então, do meu coração brotaram estas palavras: “livra-me do mal”. Orei com fervor, dizendo essas palavras. Então, Deus disse: “Apague a luz, Ian.” Reuni toda a minha coragem e desliguei a luz principal.

Sentei na beirada da minha cama, com a lanterna acesa. Senti-me como um guerreiro Jedi, do Guerra nas Estrelas! Comecei a pensar: “Se não desligar a lanterna, vou ter de passar o resto da minha vida dormindo com a luz acesa.” Desliguei a lanterna. Nada aconteceu. A oração tinha surtido efeito. Deitei na cama e fui dormir.    

CAPÍTULO ONZE

VENDO POR UMA NOVA LUZ


Vigiai, estai firmes na fé;

 portai-vos varonilmente,  e fortalecei-vos.

I Coríntios 16:13 (ACF)

Acordei, no dia seguinte, e fui tomar o café da manhã. Meus amigos chegaram do surfe matutino, e começaram a conversar comigo. Comecei a perceber que o que eles estavam dizendo não era o que eles queriam dizer. Aquilo me confundiu; era como se eu estivesse ouvindo duas mensagens diferentes. Comecei a ver através das máscaras deles. Pela primeira vez na minha vida, eu estava começando a enxergar as coisas por uma nova luz. Vi que a intenção do coração dos meus amigos era totalmente contrária ao que estava saindo da boca deles. Foi assustador para mim, pois eu não sabia como reagir àquele tipo de discernimento. Então, voltei para o meu quarto, e fiquei lá.     

Naquela noite, acordei suando frio outra vez. Algo próximo de mim estava me assustando. Olhei em volta, e, para o meu horror, os demônios que eu tinha visto na noite passada estavam no meu quarto, observando-me através do mosquiteiro da minha cama. Mas, por algum motivo, eles não podiam me tocar. Eles estavam me amedrontando, mas não podiam me fazer mal. No meu coração, eu tinha uma grande paz. Eu sabia que tinha visto a luz de Deus e que ela agora estava em mim. Não importava se a chama era pequena; ela estava em mim e eles não podiam me tocar. Mas com certeza eles estavam tentando me amedrontar e me fazer mal.       

Agarrei a lanterna de novo. Desta vez, eu estava com medo de sair da cama para ligar a luz, porque eles estavam no meu quarto. Eu não sabia que espécie de poder eles tinham. Com a luz da lanterna mal iluminando o quarto, pulei da cama e fui direto para o interruptor. Com a luz já acesa, caí de joelhos. Eu lutava com a minha mente, tentando manter a minha sanidade. Orei o Pai Nosso de novo e então fui dormir.   

Eu tinha de ficar mais dois dias em Mauritius, antes de viajar para a Nova Zelândia. Na noite seguinte, fui acordado por uma batida na minha janela. Era uma garota, que disse: “Ian, quero falar com você, deixe-me entrar.” Como eu a conhecia, não vi nada de mais. Sonolento, fui abrir a porta. No instante em que abri, a menina agarrou a porta e eu vi os olhos dela. Eram vermelhos como aqueles olhos que tinham me assustado nas duas noites anteriores. Ela começou a falar, em um inglês perfeito. Ela era crioula e nunca tinha falado bem o inglês. Ela disse: “Esta noite, você vai vir conosco, Ian. Vamos te levar para um lugar.” Ouvi passos se aproximando. Tentei fechar a porta, mas não consegui tirá-la do lugar, pois era como se aquela garota tivesse ganhado uma força sobrenatural. Então, do meu coração, vieram estas palavras: “Em nome de Jesus – Sai!” Ela cambaleou para trás, como se tivesse levado uma pancada no peito. Quando a vi tentando se apoiar, fechei a porta na cara dela e depois tranquei. Eu estava tremendo, mas a salvo por enquanto.     

Finalmente, o último dia chegou e eu estava pronto para ir embora. Um táxi viria me buscar às 5 da manhã. Fui dormir. Mas, no meio da noite, fui acordado, desta vez por pedras que estavam sendo atiradas na janela. Era aquela garota de novo. Eu tinha me precavido e trancado as portas, mas tinha deixado uma pequena janela aberta. Pensei: “O que quer que sejam essas criaturas, elas querem me matar e estão usando os humanos para isso!” Eu estava prestes a pular da cama e ir fechar aquela janela, quando, do lado de fora, um enorme braço preto surgiu pela janela e deu uma pancada no trinco. Ouvi a garota dizer, mansamente: “Ian, queremos falar com você. Venha cá.” Fingi que estava dormindo, e, outra vez, as pedras começaram a ser atiradas na janela. Desta vez, ela falou mais alto: “Ian, venha cá.” E as pedras continuaram. Agora, a voz dela era de raiva: “Ian, venha cá!” De repente, vi uma lança surgindo pela janela aberta, e ser apontada para mim. Agarrei a minha lanterna. “A melhor defesa é o ataque”, pensei. Direcionei a luz da lanterna para os olhos daquele que estava segurando a lança. Eram vermelhos também! Pulei da cama, gritando com todas as minhas forças, puxei a lança para dentro e empurrei contra ele, que recuou. Joguei a lança para fora e tranquei a janela. Rapidamente, iluminei o lado de fora, com a minha lanterna, e vi três homens e uma mulher. Assim que perceberam que eu iria iluminá-los, eles ficaram medrosos como os cachorros que estão prestes a ser apedrejados. O que me impressionou foi o medo que eles tinham da luz




O quarto de trás do bangalô onde Ian dormia

Eu estava tão perturbado que passei o resto da noite em claro, esperando o táxi chegar. Mas ele não veio. Acordei meus amigos surfistas e pedi que eles fossem atrás do táxi para mim. Eles disseram que seria impossível usar o táxi, pois, à noite, alguém tinha danificado o radiador do carro. Era o único táxi de Mauritius, e o meu amigo teve de ir até a cidade mais próxima para conseguir outro para mim. Quando ele voltou, havia um grupo de crioulos com pedaços de pau na mão, do lado de fora da minha casa, e o motorista ficou com medo de passar por eles. Com certeza, eu tinha causado um rebuliço naquele lugar, por causa da minha miraculosa recuperação. As pessoas daquela cidade sabiam que era para eu estar morto, mas, como eram supersticiosos, achavam que eu era um fantasma ou algo pior. Apesar disso, conseguimos passar por eles e chegar ao aeroporto, onde comprei minha passagem para a Nova Zelândia, com parada na Austrália.       

Em Perth, na Austrália, passei na casa do meu irmão mais novo, que estava morando lá. Contei tudo que tinha visto. Ele ficou impressionado, mas não acreditou. Naquela noite, dormi no quarto dele, pois ele tinha voltado para a Nova Zelândia. No meio da noite, acordei sendo atacado por demônios que tinham olhos brancos. Saí do quarto e vi, na lareira, uma pequena imagem de Buda, sentado. Quando olhei para ele, Deus falou comigo e disse que aqueles demônios de olho branco saíram daquele ídolo. Fiquei espantado! Agora eu sabia que a experiência que eu tinha tido em Colombo, com aqueles ídolos, era algo demoníaco. Decidi ficar menos tempo na Austrália e voltar imediatamente para a Nova Zelândia.        

Quando o avião estava descendo em Auckland, na Nova Zelândia, perguntei ao Senhor: “O que eu sou agora?” Eu estava ouvindo uma música do Men at Work, no meu walkman. Uma voz falou, acima do som do aparelho: “Ian, você agora é um cristão nascido de novo”. Desliguei o walkman e olhei ao redor, para ter certeza se não tinha sido alguém no avião que tinha falado aquilo. Então, peguei meus óculos escuros, na minha mochila, e os coloquei. Com aquela sensação de solidão que eles proporcionam, fiquei ali, quieto e emocionado. Um cristão! Era isso que eu era? Quem vai querer ser um cristão? Eu ainda não tinha me dado conta de que tinha me tornado um cristão.     

Meus pais me pegaram, no aeroporto. Em casa, minha mãe tinha deixado o meu quarto exatamente do jeito que estava há dois anos, com os posters de surfe. Era como se o tempo não tivesse passado. Eu tinha voltado para o abrigo do meu lar. Naquela noite, fui acordado por algo que estava me sacudindo. Eu já sabia expulsar os demônios, usando o nome de Jesus e a oração do Pai Nosso. Eles eram obrigados a sair. Mas o que eles estavam fazendo na minha casa, no meu quarto? Fiquei furioso! Levantei, decidido a repreendê-los severamente! Era isso que eu ia fazer! Eu acordaria os meus pais, mas era isso que ia fazer! Sentei na minha cama e disse: “Deus, estou cansado dessas coisas me atormentando no meio da noite. O que devo fazer para me livrar deles?” Deus disse: “Leia a Bíblia.” Respondi: “A próxima coisa que o Senhor vai me pedir é ir para a igreja! Não tenho Bíblia!” “Seu pai tem uma – vá e peça a ele.”           

E foi o que fiz. Comecei a ler do começo, a partir do Livro de Gênesis: “No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.” Chorei quando li isso. Na universidade, eu tinha estudado toda espécie de livro, mas nunca tinha olhado para aquele que me contaria a verdade. Nas próximas seis semanas, li de Gênesis a Apocalipse. Tudo que eu tinha visto no céu estava registrado naquele livro!   

No primeiro capítulo do Apocalipse, li que Jesus usava vestes brancas, que o rosto dele brilhava como o sol, que ele tinha sete estrelas na mão, que ele é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. Em João 8:12, li que Jesus é a luz do mundo, e quem o segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida. Li acerca do nascer de novo, pelo Espírito de Deus, no capítulo três de João. Li que, se confessar meus pecados a Deus, ele vai me perdoar e lavar a minha iniquidade. Li sobre o novo céu e a nova terra, onde não haverá mais dor nem pranto. Aprendi que, quando um demônio é expulso de uma pessoa, ele tenta voltar. Aprendi que Jesus tinha me dado autoridade sobre os demônios com os quais eu tinha me deparado, e que os demônios habitam nos ídolos. Passei a ter temor da Bíblia, pois eu não imaginava que a verdade escrita nas suas páginas fosse tão essencial para a vida*.  

Eu tive essa experiência em 1982, e, desde então, estou seguindo a Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador. Inicialmente, passei algum tempo na fazenda de gado leiteiro da minha irmã, na Nova Zelândia, pondo a minha vida em ordem. Em 1983, no meio do ano, juntei-me a um grupo de evangelistas intitulado YWAM – Youth With a Mission (Juventude com uma Missão), e viajei com eles, de barco, pelas ilhas do pacífico, falando do amor de Deus para as pessoas. Depois, voltei para o sudeste da Ásia e preguei para as tribos isoladas da Malásia. Durante três anos, trabalhei nas florestas do estado de Sarawak e no continente. Foi nessa época que conheci Jane, minha esposa.

Desde então, tenho trabalhado na igreja (atualmente, sou ministro da Palavra) e como pregador itinerante, tendo viajado para muitas nações, a fim de contar este testemunho. Minha esposa Jane e eu temos três lindos filhos: Lisa, Michael e Sarah. Nosso desejo é continuar compartilhando com todos as incríveis boas novas da misericórdia e do amor absoluto de Deus e da sua provisão através da morte de Jesus na cruz, pelos nossos pecados.  

Ian, Jane, Lisa, Michael e Sarah


* Para a referência nas Escrituras, veja as notas no apêndice.



CAPÍTULO DOZE
  E VOCÊ?


Foi assim que Deus amou o mundo:

Ele deu o seu Filho, seu único Filho.

E este é o motivo: para que ninguém seja destruído; Todo aquele que Nele crê, Tem a vida eterna.

Deus enviou o seu Filho não para que condenasse o mundo, dizendo que o mundo é mal.

Ele veio para ajudar,

Para pôr o mundo em ordem outra vez.

Todo aquele que Nele crê é absolvido;

Todo aquele que recusa a verdade que há Nele está debaixo da sombra da morte, sem saber .

Mensagem baseada no capítulo 3 do Evangelho de João

O amor de Deus por nós é totalmente irresistível. Ele enviou o seu próprio filho, Jesus, para morrer no nosso lugar, para pagar o preço do nosso pecado. A Bíblia diz que o salário do nosso pecado é a morte, e que todos nós somos pecadores, mas o dom de Deus é a vida eterna, através de Jesus Cristo (Romanos 5:8-11). A decisão é sua – você sozinho pode escolher a vida!     

Se este testemunho incentivou você a aceitar a vida eterna que Deus oferece, é ideal que você faça uma oração, assim como Ian fez. 

♦ Peça para Deus perdoar todos os seus pecados.

♦ Perdoe a todos que te prejudicaram nesta vida.

♦ Peça que Deus seja o Senhor da sua vida e comprometa-se a segui-lo e a fazer a vontade Dele.

Se você tomou a decisão de seguir Jesus, é importante fazer amizade com outros seguidores, a fim de que eles possam encorajar e ajudar você a crescer na fé. Leia a Bíblia – consiga uma e comece a leitura pelo Evangelho de João (você saberá como achar este livro olhando o índice que fica no início da Bíblia).

 

Nossa oração em seu favor é que Cristo viva na sua vida, quando você abrir a porta e convidá-lo para entrar. E que, com os dois pés firmados no amor, você seja capaz de compreender as grandes dimensões do amor de Cristo, juntamente com todos os cristãos. Você sentirá a largura! O comprimento! A profundidade! E viverá uma vida cheia da imensidão de Deus! (Efésios 3) 

NOTAS

SITE DE IAN

Para mais informações sobre a vida de Ian e sobre os locais onde ele atualmente está contando o seu testemunho, visite o site http://www.aglimpseofeternity.org   

BOX JELLYFISH

Para mais informações sobre a Box Jellyfish, dê uma olhada nestes sites: http://www.pharmacology.unimelb.edu.au/pharmwww/avruweb/jellyfi.htm#jellyfish http://animaldiversity.ummz.umich.edu/accounts/chironex/c._fleckeri.html http://www.usyd.edu.au/su/anaes/marine_enven.html

 ONDE ENCONTRAR  NAS ESCRITURAS

  • Morte e julgamento; Mateus 25:31-46, Romanos 2:6-11, Romanos 14:7-12, 1 Coríntios 15:35-44, 2 Timóteo 4:1, Hebreus 9:27, Apocalipse 20:11-15
  • A morte de Jesus pelos nossos pecados; João 11:25-26, Romanos 6:9-11, Romanos 8:10-11; 31-35, Colossenses 2:13-14, 1 Tessalonicenses 5:10, 1 Pedro 1:3-4
  • Jesus, o Filho glorificado de Deus; Ezequiel 1:26-28, Lucas 9:29, João 20:19, Atos 7:55-56; Atos 9:3-5, 1 Tessalonicenses 4:14, Apocalipse 1:13-16,
  • As Trevas e a Luz; Isaías 42:6, Mateus 8:12; 22:13, Lucas 2:32, João 1:4-9; 8:12, Atos 13:8-11,Romanos 13:12, 2 Coríntios 4:6, Efésios 5:8-14, 1 João 1:5; 2:8-11, Apocalipse 21:23
  • Vida eterna; Salmos 145:13, Eclesiastes 12:5, Isaías 51:11; 60:19-20, Jeremias 31:3, Marcos3:29, Lucas 16:9, João 3:15; 4:36, Romanos 1:20, Efésios 3:10,11, 2 Tessalonicenses 2:16, 2Timóteo 2:10, Hebreus 5:9; 9:15, 1 Pedro 5:10, 2 Pedro 1:11, Judas 21, Apocalipse 14:6,
  • Céu e inferno; Mateus 5:11-12; 8:12; 10:15; 18:10; 22:15; 23:15, 34-37, Lucas 10:20; 15:7;16:25; 20:36; 23:43, João 14:2, Romanos 8:17, 1 Coríntios 15:42-51, 2 Coríntios 12:2-4, 2Tessalonicenses 1:9, Judas 6, Hebreus9: 12; 12:22-23, 1 Pedro 1:4, 2 Pedro 1:10-11; 2:4; 3:13,Apocalipse 7:15; 14:13; 21:2-4, 10-27; 22:3-5,15
  • O amor de Deus; Salmos 103:4, Salmos 36:7, Mateus 18:10, João 15:13, Romanos 5:5-8, Gálatas2:20, Efésios 2:4-5; 3:19, 2 Tessalonicenses 2:16, Tito 3:4
  • Demônios; Mateus 8:29; 10:1; 12:24-30, Marcos 1:23-24, 5:8-9, Lucas 8:29; 10:17-18, 1 Coríntios 10:20, 1 Timóteo 4:1

OUTROS COMENTÁRIOS BÍBLICOS, FEITOS PELO DR. RICHARD KENT

Trata-se de uma verdade bíblica que, quando morremos, o espírito sai do nosso corpo. O mais conhecido exemplo que a Bíblia cita sobre esse assunto está em João 19:30, passagem em que Jesus disse: “Está consumado! E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.” De acordo com João 19:33, não há dúvida de que Jesus morreu. I Pedro 3:19 nos diz que Jesus pregou, em espírito, àqueles que morreram afogados no dilúvio ocorrido nos dias de Noé.  

Além disso, parece-me que o próprio Paulo teve uma experiência quase morte, após ter sido apedrejado pelos judeus de Antioquia e Icônio. (Atos 14:19). Aqueles judeus ficaram furiosos com o fato de Paulo ter abandonado o Sinédrio e ter se tornado um seguidor de Jesus. É certo que eles o mataram, em consequência do apedrejamento. Paulo descreve a sua própria experiência quase morte como “sendo arrebatado ao terceiro céu” (II Coríntios 12:2).

Finalmente, o médico Lucas registrou o retorno do espírito de uma menina de doze anos ao corpo dela, para que pudesse voltar à vida. Jesus tinha sido chamado para ver a filha de Jairo, que tinha morrido, e pediram que Ele trouxesse a menina de volta à vida. O episódio está registrado em Lucas 8:53-55: “E riam-se dele, sabendo que estava morta. Mas ele [Jesus], pondo-os todos fora, e pegando-lhe na mão, clamou, dizendo: Levanta-te, menina. E o seu espírito voltou, e ela logo se levantou.” O ensinamento contido nesta passagem é que, quando o espírito da menina retornou para o corpo, ela voltou a viver. Creio que esta é uma explicação bíblica para o caso de Ian McCormack, cujo espírito também retornou para o corpo, após ele ter morrido.

Traduzido em português por Marcelo Raupp


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